Por Raquel Frattini | Chirgwin
A reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva como presidente do Brasil, após um segundo turno acirrado contra Flávio Bolsonaro, levanta uma questão especialmente relevante para o Chile: poderão dois governos de orientações políticas diferentes aprofundar a integração econômica e gerar novas oportunidades para as empresas?
A resposta dependerá menos das afinidades ideológicas do que da capacidade de ambos os países de transformar seus interesses compartilhados em resultados concretos.
A relação entre Lula e o presidente chileno, José Antonio Kast, já oferece sinais de pragmatismo institucional. Ambos os presidentes reuniram-se durante este ano e, após a divulgação do resultado eleitoral, Kast telefonou para Lula para felicitá-lo, reafirmando sua disposição de trabalhar conjuntamente na integração econômica e no combate ao crime organizado. É um sinal relevante: as relações entre Estados devem transcender as diferenças políticas de seus governos.
Para as empresas, a continuidade do governo Lula permite antecipar uma orientação econômica e regulatória conhecida, embora não necessariamente isenta de mudanças. O Brasil continua enfrentando importantes desafios fiscais, elevados custos de financiamento e a implementação de uma profunda reforma tributária. A dimensão de seu mercado e suas oportunidades de investimento convivem com um sistema jurídico e administrativo complexo, no qual as competências federais, estaduais e municipais incidem diretamente sobre a atividade empresarial.
Um exemplo concreto dos desafios comerciais pendentes é a situação do salmão chileno no Brasil.
A reforma tributária brasileira deixou esse produto fora dos alimentos beneficiados com alíquota zero no novo sistema de IVA, expondo-o a uma tributação geral estimada em torno de 26,5%. Embora não se trate de um imposto dirigido especificamente contra o Chile, a diferença de tratamento em relação a outras proteínas poderia afetar sua competitividade em um de seus principais mercados de exportação.
Será possível que a nova etapa das relações entre Lula e Kast contribua para reverter essa situação? A resposta dependerá da capacidade das autoridades e do setor privado de impulsionar soluções dentro do marco legal brasileiro. O caso representa uma oportunidade concreta para demonstrar que a diplomacia econômica pode contribuir para resolver obstáculos que afetam diretamente o comércio bilateral.
Outro desafio estratégico será dar ao Corredor Bioceânico a importância que merece.
O projeto, que conectará Brasil, Paraguai, Argentina e Chile por meio de uma rota terrestre entre o Atlântico e os portos do norte chileno, representa muito mais do que uma iniciativa de infraestrutura: constitui uma oportunidade de integração produtiva e comercial para os quatro países. Seu desenvolvimento permitirá melhorar a conectividade, fortalecer as cadeias de suprimentos, atrair investimentos e facilitar o acesso aos mercados da Ásia-Pacífico. Será imprescindível que os quatro governos o assumam como uma prioridade estratégica compartilhada, assegurando continuidade política, investimentos em infraestrutura e coordenação aduaneira e fronteiriça. De pouco servirão as novas rodovias se não forem acompanhadas de procedimentos eficientes e regras que facilitem o trânsito internacional de mercadorias.
O projeto conta, além disso, com respaldo institucional. Os governos do Chile e do Brasil reafirmaram durante 2026 seu compromisso com sua implementação, reconhecendo que a conectividade física deve ser acompanhada de segurança e coordenação operacional. A reeleição de Lula oferece continuidade a essa agenda, cuja concretização dependerá também do Paraguai e da Argentina.
Nesse contexto, será igualmente essencial fortalecer a coordenação entre a ApexBrasil e a ProChile.
A Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil) e a Direção-Geral de Promoção de Exportações do Chile (ProChile) desempenham um papel fundamental na internacionalização das empresas, na identificação de oportunidades comerciais e na conexão entre os setores público e privado. Ambas as instituições assinaram, em abril de 2025, um acordo de cooperação para promover o comércio e os investimentos bilaterais. Aprofundar essa colaboração, manter canais técnicos permanentes e desenvolver iniciativas empresariais conjuntas será fundamental para que a integração econômica avance com continuidade, independentemente dos ciclos políticos.
Chile e Brasil contam, além disso, com uma sólida base de instrumentos jurídicos e comerciais.
Entre eles destacam-se o Acordo de Livre Comércio, vigente desde 2022, que complementa o ACE-35 de 1996, e a Convenção para Evitar a Dupla Tributação em relação aos impostos sobre a renda, modernizada por meio de um protocolo modificativo aplicável desde 2026. Esses instrumentos contribuem para estabelecer regras mais claras para as operações transfronteiriças, reduzir obstáculos e proporcionar maior segurança aos investimentos. O desafio consiste em aproveitá-los efetivamente e avançar naquelas matérias em que ainda existem barreiras regulatórias ou administrativas.
A partir da experiência daqueles que assessoramos negócios entre ambos os países, as principais dificuldades para investir raramente se encontram exclusivamente nas relações diplomáticas. As diferenças tributárias, as exigências trabalhistas, os procedimentos administrativos e as particularidades regulatórias costumam ter um impacto muito mais direto sobre as decisões empresariais. Por isso, a previsibilidade normativa, a estabilidade institucional e a eficiência das autoridades continuarão sendo fatores determinantes para atrair investimentos.
A reeleição de Lula confirma a continuidade de um projeto político no Brasil, enquanto o Chile desenvolve sua própria agenda sob a presidência de Kast. Ambos os governos têm a oportunidade de demonstrar que a cooperação econômica pode ser construída sobre interesses compartilhados, mesmo quando existem diferenças ideológicas.
As eleições definem governos, mas são as instituições, a segurança jurídica e a capacidade de transformar acordos em resultados que constroem relações comerciais duradouras. Para o Chile e o Brasil, essa deve ser a prioridade.
Raquel Frattini, advogada brasileira e chilena, desenvolvedora de negócios e responsável pela área de acordos internacionais da Chirgwin.
